Porfírio Silva, A Filosofia da Ciência de Paul Feyerabend, Lisboa, Instituto Piaget, 1998, 354 pp.

 

 

Referência a esta obra na Revue Philosophique de Louvain

 

Ce travail présente et discute les grands thèmes de la philosophie des sciences de Feyerabend (1924-1994), un des auteurs les plus importants et les plus controversés de ce que l'on a convenu d'appeler "la nouvelle philosophie des sciences".

La lecture de la pensée de Paul Feyerabend exposée dans ce livre se distingue nettement des interprétations proposées le plus fréquemment, qu’elles soient fortement critiques ou au contraire très favorables. L’Auteur montre entre autres, et ceci constitue un indice marquant de l’originalité de sa lecture, que ce philosophe, contrairement à ce qu’un grand nombre d’auteurs considèrent comme évident, ne propose pas comme principe méthodologique la consigne « tous est permis » (« anything goes ») – et ne propose pas non plus l’élimination de toute méthode scientifique, comme semble vouloir le laisser entendre le titre de son œuvre la plus connue Contre la méthode.

Les problèmes centraux de la philosophie des sciences de Paul Feyerabend sont ici mis en perspective sous un jour nouveau : la critique du fondationnalisme empiriste, la théorie pragmatique de l’observation, la critique du progrès par accumulation et la proposition du pluralisme méthodologique, la thèse de l’incommensurabilité, le problème du relativisme épistémologique. Tous ces thèmes sont examinés à la lumière de son « réalisme hypothétique » et de l’élargissement du faillibilisme.

En mettant radicalement en question les relations entre la pensée scientifique (associé à des pratiques scientifiques institutionnalisées et puissantes) et la pensée philosophique, la philosophie des sciences de Paul Feyerabend constitue une contribution importante à une philosophie de la culture contemporaine. Son œuvre, si on la situe dans le cadre du dialogue philosophique qu’elle noue avec Karl Popper, Thomas Kuhn et Imre Lakatos, fournit la base indispensable à la compréhension de ce que l’on a appelé l’ « anarchisme épistémologique ».

 

(Nota bibliográfica publicada na Revue Philosophique de Louvain, 97 (3-4), 1999)

 

O Autor. PORFÍRIO SILVA é mestre em Filosofia  e doutorando em Filosofia da Ciência pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Foi investigador visitante no Institut Supérieur de Philosophie da Universidade Católica de Louvain-la-Neuve.

 

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Versão portuguesa do texto acima

 

Este trabalho apresenta e discute os grandes temas da filosofia das ciências de Feyerabend (1924-1994), um dos autores mais importantes e mais controversos do que se convencionou “a nova filosofia das ciências”.
A leitura do pensamento de Paul Feyerabend exposta neste livro distingue-se claramente das interpretações propostas mais frequentemente, quer sejam fortemente críticas ou pelo contrário muito favoráveis. O Autor mostra, designadamente, e isto constitui um índice marcante da originalidade da sua leitura, que este filósofo, contrariamente que grande número de autores considera como evidente, não propõe como princípio metodológico a consigna “vale tudo” (“anything goes”) - e também não propõe a eliminação de todo o método científico, como parece querer deixá-lo entender o título da sua obra mais conhecida Contra o método.
Os problemas centrais da filosofia das ciências de Paul Feyerabend são postos aqui em perspectiva sob uma nova luz: a crítica do fundacionalismo empirista, a teoria pragmática da observação, a crítica do progresso por acumulação e a proposta do pluralismo metodológico, a tese da incomensurabilidade , o problema do relativismo epistemológico. Todos esses temas são examinados à luz do seu “realismo hipotético” e do alargamento do falibilismo.
Pondo radicalmente em questão as relações entre o pensamento científico (associado à práticas científicas institucionalizadas e poderosas) e o pensamento filosófico, a filosofia das ciências de Paul Feyerabend constitui uma contribuição importante para a filosofia da cultura contemporânea. A sua obra, se situada no quadro do diálogo filosófico que ela estabelece com Karl Popper, Thomas Kuhn e Imre Lakatos, fornece a base indispensável à compreensão do que se chamou o  “anarquismo epistemológico”.

 

 

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ÍNDICE

 

 

PREFÁCIO

 

INTRODUÇÃO

 

PARTE I

UM CONTEXTO PROBLEMÁTICO

PARA A FILOSOFIA DA CIÊNCIA DE PAUL FEYERABEND

 

CAPÍTULO UM – KARL POPPER: FALSIFICACIONISMO E PROGRESSO CIENTÍFICO

 A. OS GRANDES PROBLEMAS DA TEORIA DO CONHECIMENTO

1.

O problema da indução

1.1.

O "problema de Hume", um problema do empirismo

1.2.

Problema lógico e problema psicológico da indução

1.3.

Conhecimento objectivo. Recusa das abordagens psicologistas e

 

sociologistas em teoria do conhecimento científico

1.4.

Conhecimento subjectivo, conhecimento objectivo e teoria do

 

conhecimento científico

1.5.

Reformulação (e solução) popperiana do problema da indução

2.

O problema da demarcação

2.1.

Eliminação da metafísica e análise da linguagem: aspectos característicos de um debate no seio do Círculo de Viena

2.2.

A solução popperiana para o problema da demarcação

 B. O PROGRAMA FALSIFICACIONISTA

1.

Dedutivismo e eliminação da descoberta na metodologia

2.

Falsificabilidade e falsificação

2.1.

O que é uma lei natural?

2.2.

Caracterização lógica das leis naturais

2.3.

Caracterização lógica da falsificabilidade

2.4.

Da falsificabilidade à falsificação

2.5.

Falsificação e estratagemas convencionalistas

2.6.

Corroboração

3.

A base empírica e o carácter teórico da experiência

3.1.

Caracterização lógica dos enunciados básicos

3.2.

O carácter convencional dos enunciados básicos

3.3.

O carácter teórico da experiência

4.

Falsificacionismo e holismo (acerca da "tese Duhem/Quine")

 C. RACIONALIDADE E PROGRESSO DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO

1.

Falsificabilidade, testabilidade e conteúdo de uma teoria

2.

Progresso da ciência e preferência racional

3.

Conteúdo informativo e probabilidade

4.

Progresso da ciência e verdade

5.

Verosimilhança e preferência racional

  

CAPÍTULO DOIS – THOMAS KUHN : AS MODALIDADES HISTORICAMENTE CONCRETAS DO PROGRESSO DA CIÊNCIA

 A. CIÊNCIA NORMAL E REVOLUÇÕES: DIFERENTES MODALIDADES DE PROGRESSO CIENTÍFICO

1.

A ciência normal como um empreendimento acumulativo

2.

Crise e revolução

3.

As revoluções científicas como desenvolvimentos não acumulativos

 B. PARADIGMAS, MUDANÇA PARADIGMÁTICA, INCOMENSURABILIDADE

1.

Precisões em torno da noção de "paradigma"

2.

Mudanças de paradigma como mudanças de visão do mundo

3.

Incomensurabilidade entre paradigmas

 C. ALGUNS ASPECTOS DE UM DEBATE, PARA O QUAL SE CONVOCA KARL POPPER COMO INTERLOCUTOR PRIVILEGIADO

1.

Crítica do programa falsificacionista

2.

O carácter progressivo da ciência normal

3.

Acerca do subjectivismo e relativismo das teses de Kuhn

  

CAPÍTULO TRÊS – IMRE LAKATOS E A METODOLOGIA DOS PROGRAMAS DE INVESTIGAÇÃO: UM NOVO OLHAR SOBRE A RACIONALIDADE CIENTÍFICA?

 A. PARA UMA CRÍTICA DO FALSIFICACIONISMO INGÉNUO

1.

Uma forma primitiva de falsificacionismo: o falsificacionismo dogmático

2.

O falsificacionismo metodológico: uma forma de convencionalismo

3.

Falsificacionismo sofisticado: séries de teorias como unidade de análise

 B. PLURALISMO TEÓRICO, CARÁCTER HISTÓRICO DA COMPETIÇÃO CIENTÍFICA E METODOLOGIA DOS PROGRAMAS DE INVESTIGAÇÃO

1.

Preferência pelo pluralismo teórico

2.

O carácter histórico da competição entre teorias científicas

3.

A metodologia dos programas de investigação científica

4.

O problema da eliminação de teorias na metodologia dos programas de

 

investigação científica

5.

Modificações no problema da demarcação: um novo olhar sobre a 

 

racionalidade científica

 

CONCLUSÃO DA PARTE I

 

 

PARTE II

A FILOSOFIA DA CIÊNCIA DE PAUL FEYERABEND

 

CAPÍTULO UM – DA CRÍTICA DO FUNDACIONALISMO À TEORIA PRAGMÁTICA DA OBSERVAÇÃO

1.

O fundacionalismo da concepção positivista da ciência

2.

A distinção entre observação e teoria é problemática

3.

As formas de introdução de uma interpretação para uma linguagem

 

observacional, oferecidas pela concepção positivista da ciência para

 

satisfazerem o requisito de serem independentes de qualquer teoria

3.1.

O princípio do sentido fenomenológico

3.1.1.

A teoria dos dados dos sentidos

3.1.2.

Refutação do princípio do sentido fenomenológico

3.2.

O princípio do sentido pragmático. Apresentação e refutação

4.

Refutação da tese da estabilidade

5.

A linguagem comum como linguagem observacional

6.

A teoria pragmática da observação

7.

Algumas dificuldades da posição de Feyerabend acerca do estatuto

 

epistemológico da observação. Precisões acerca do papel da teoria

 

pragmática da observação na recusa do fundacionalismo.

8.

Conclusão

  

CAPÍTULO DOIS – DA CRÍTICA DO ACUMULACIONISMO A UMA METODOLOGIA PLURALISTA. PROLIFERAÇÃO TEÓRICA, CONTRA-INDUÇÃO E REVALORIZAÇÃO DA METAFÍSICA.

1.

O acumulacionismo do empirismo contemporâneo

1.1.

A teoria da explicação, de Hempel e Oppenheim

1.2.

A teoria da redução, de Nagel

1.3.

Dois pressupostos do acumulacionismo

2.

Crítica da condição de consistência

2.1.

A condição de consistência não dá conta da prática científica efectiva

2.2.

A condição de consistência é metodologicamente indesejável

2.2.1.

A condição de consistência releva de um conservantismo

 

epistemológico

2.2.2.

A aceitação da condição de consistência implica a adopção do 

 

princípio da autonomia relativa dos factos. Crítica do princípio da

 

autonomia relativa dos factos.

2.2.2.1.

Os modelos de comparação directa entre teoria e factos são

 

excessivamente simplistas para servirem uma caracterização da

 

investigação científica

A)

Anomalias e falsificação

B)

Interacção entre teorias sob teste e ciências auxiliares

C)

Interpretações naturais e transformação da experiência

2.2.2.2.

A formulação de teorias alternativas é necessária à avaliação de

 

uma teoria do ponto de vista da sua adequação factual

A)

Existem factos que só podem ser descobertos com o auxílio de

 

teorias alternativas à teoria que se pretende testar

B)

Existem factos cujo carácter refutante de uma dada teoria só pode

 

ser estabelecido, retrospectivamente, com recurso a teorias

 

alternativas

3.

Da rejeição do acumulacionismo a uma metodologia pluralista:

 

proliferação de teorias alternativas e progresso do conhecimento

4.

Contra-indução e reavaliação do papel da metafísica

 

 CAPÍTULO TRÊS – INCOMENSURABILIDADE E REALISMO HIPOTÉTICO

1.

Crítica da condição de invariância do sentido

1.1.

A condição de invariância do sentido não dá conta da prática científica

 

efectiva

1.2.

A condição de invariância do sentido é metodologicamente

 

indesejável: o problema da incomensurabilidade

2.

Proliferação e incomensurabilidade

3.

Incomensurabilidade e realismo hipotético

4.

Incomensurabilidade: objecções, respostas e reconsiderações

A)

Achinstein: nem toda a mudança teórica envolve variação de sentido

B)

Smart e Sellars : acerca da impossibilidade de uma teoria substituir

 

completamente as teorias rivais anteriores e introduzir uma linguagem

 

observacional inteiramente nova

C)

Scheffler: como podem teorias incomensuráveis ser rivais?

D)

A crítica de Putnam (fase internalista)

E)

A crítica de Putnam (fase externalista)

F)

Shapere: o problema da comparabilidade de teorias incomensuráveis

G)

Popper e as medidas de verosimilhança: a degenerescência de um

 

programa rival da tese da incomensurabilidade

 

CAPÍTULO QUATRO – PARA UMA COMPREENSÃO DO "ANARQUISMO EPISTEMOLÓGICO" COMO SÍNTESE DA PROPOSTA FEYERABENDIANA EM FILOSOFIA DA CIÊNCIA

1.

Anarquismo epistemológico: método, descoberta e justificação

2.

O desvio relativista de Feyerabend: do relativismo político ao

 

relativismo epistemológico. Reconsiderações e retorno ao realismo

 

 hipotético

2.1.

Ciência e sociedade: relativismo político

2.2.

Adeus à razão: do relativismo político ao relativismo epistemológico

2.3.

Reconsiderações: abandono do relativismo epistemológico e restrição

 

do relativismo político

                           

CONCLUSÃO

               

NOTAS

 

BIBLIOGRAFIA

 

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